Eu nunca fui fã do Zach Randolph. E como poderia? Em uma carreira de nove anos na Liga, o ala-pivô sempre se destacou pela postura individualista e questionável profissionalismo. Por isso, fiquei surpreso com a minha primeira reação ao ver a lista de reservas do All Star Game: a preocupação imediata foi procurar o nome de Randolph, mais do que o de qualquer outro jogador. E, quando o vi, a sensação foi de alívio.
Será que virei fã do Zach Randolph? Não, ainda não chega a tanto. Eu gosto, sim, de histórias de recuperação e/ou redenção. Hoje, uma convocação para o Jogo das Estrelas não quer dizer muito – em especial, porque o evento festivo teve seu significado muito esvaziado nos últimos anos. Mas, no caso específico do jogador 28 anos, tem um significado especial: é um atestado incontestável da temporada de redenção que Randolph vive com o Memphis Grizzlies.
A redenção não está nos números pessoais. Esse nunca passou perto de ser o problema de Randolph. Nos últimos anos, o ala-pivô sempre foi reconhecido como um dos jogadores de garrafão da Liga capazes de registrar médias de 20 pontos e 10 rebotes em uma temporada. Em 2009-10, por exemplo, vem acumulando excelentes 21 pontos e 11.6 rebotes.
Mesmo com todas estas credenciais e números respeitáveis (desde 2003-04, não faz menos de 17 pontos e oito rebotes em uma temporada), percebam como Randolph nunca sequer entrou na discussão sobre ser um dos melhores PFs da NBA. Esta é uma constatação muito importante porque nos apresenta outros dados sobre sua carreira: ele só participou de oito jogos de pós-temporada (menos de um por ano de carreira!) e estará em seu primeiro All Star Game.
O que isso quer dizer? O ala-pivô nunca conseguiu converter seus números pessoais em vitórias. As fartas estatísticas sempre foram mais enfeite do que virtude no custo-benefício de Randolph. Com seu estilo individualista (ganhou fama de “buraco negro”, jogador fominha), encrenqueiro (sempre envolvido em problemas extra-quadra) e pouco voluntarioso (nunca passava a bola e pouco se esforçava na defesa), ele acabou virando a prova de que talento não é requisito para ser um campeão ou bem-sucedido no basquete profissional.
Para enxergar a verdadeira redenção de Zach Randolph, é preciso ir além das estatísticas – a marca da superficialidade que reinou em sua carreira. É preciso assistir aos jogos do Grizzlies na temporada. Observar os meios que levaram o ala-pivô às atuais médias que mantêm, não apenas o fim representado nos box scores. O que podemos ver é um atleta que, pela primeira vez em muito tempo (talvez na carreira), mostra certa maturidade dentro de quadra.
Randolph no Grizzlies era uma combinação “explosiva” por concepção, pois era um jogador individualista e tumultuador colocado em um time cheio de jogadores que pensavam demais nos volumes de arremessos pessoais (Iverson, Mayo, Gay). Hoje, a surpresa não é apenas o fato de Memphis estar vencendo ou que ninguém esteja reclamando, mas que o ala-pivô seja parte importante desse ambiente tranquilo: passando mais a bola e se empenhando mais na defesa, ele tornou-se voluntarioso o bastante para fazer a receita aparentemente errada dar certo. Por onde passou, notabilizou-se por ser parte do problema. No Grizzlies, tornou-se parte da solução.
O atleta que se tornou famoso pelos problemas extra-quadra e disciplinares virou um ponto de referência para o time dentro de quadra, liderando uma improvável campanha positiva, e um dos homens de confiança do técnico Lionel Hollins (além da direção da franquia). Até os problemas de peso que perseguem a carreira de Randolph estão controlados em Memphis.
Quem diria? Zach Randolph, um dos símbolos do astro pouco comprometido e individualista da NBA, parece estar amadurecendo. Perdeu peso na balança e, acima de tudo, no ego.
E a convocação para o All Star Game sintetiza tudo isso. Nos últimos anos, os técnicos selecionam os reservas do Jogo baseados muito mais na campanha dos times do que em estatísticas individuais. Randolph sempre foi visto pela Liga como um grande talento. Mas sua presença no banco de reservas do Oeste quer dizer que, pela primeira vez na carreira, ele também é visto como um possível “vencedor”.
Será que um dia serei fã do Zach Randolph? Deus sabe. Mas já há uma evolução nesse sentido. Eu nunca tive motivos para ser fã dele até esta temporada. Hoje, tenho.